Belo Horizonte,

 

 

 

 

 

A nova (e talentosa) geração

Matéria publicada no jornal O Tempo, em 18 de Julho de 2005, escrita por Daniel Barbosa.


Em sentido anti-horário, começando por Leopoldina, (de vermelho), Makely Ka, Maisa Moura, Vitor Santana, Renato Villaça, Erika e Kristoff: novos músicos, surgidos em 2002

Segunda-feira, 18 de Julho de 2005
A nova (e talentosa) geração
DANIEL BARBOSA

Julho de 2002: um grupo de compositores e intérpretes em busca de maior visibilidade para seus trabalhos cria o projeto Reciclo Geral, que consistia em apresentações semanais no espaço cultural Reciclo.

Julho de 2005: o que, há três anos, emergia como a promessa de uma nova e talentosa geração de músicos concretiza-se de maneira inequívoca. O que temos, atualmente, é uma ebulição criativa poucas vezes vista na história da música feita no Estado.

Parte considerável dos artistas que participaram do Reciclo Geral – e outros que, não tendo integrado o projeto, pertencem à mesma geração – está gravando ou lançou recentemente seu disco de estréia.

O primeiro a vir à luz, no início do ano passado, foi o álbum-projeto “A Outra Cidade”, que, encabeçado por Kristoff Silva, Pablo Castro e Makely Ka, reunia, como convidados, nomes como Alda Rezende, Sérgio Pererê, Titane, Marina Machado e Regina Spósito, entre outros.

Em outubro, foi a vez de Vitor Santana e Mariana Nunes apresentarem um caprichadíssimo álbum de estréia, que contou com a presença de gente como Mônica Salmaso, Sérgio Santos, Juarez Moreira, André Mehmari, Arthur Maia e Cristóvão Bastos, entre muitos outros.

Há cerca de um mês, outra dupla consolidada no Reciclo Geral – Dudu Nicácio e Leopoldina – fez seu debute fonográfico com um disco que tem gerado os mais elogiosos comentários.

O grupo Zé da Guiomar e o bandolinista Gabriel Guedes, que não fizeram parte do projeto, também lançaram discos este ano: o primeiro, mostrando algumas composições próprias e relendo bossas e sambas clássicos; o segundo, dedicando-se ao repertório de choro do avô, Godofredo Guedes, num CD que tem ninguém menos que Milton Nascimento, Beto Guedes, Wagner Tiso e Tavinho Moura, entre outros, como convidados especiais. Entre os que estão com o álbum de estréia no prelo ou em fase de preparação, constam Érika Machado – cujo disco será produzido por John, do Pato Fu –, Renato Villaça, Maria Cecília, Mestre Jonas, Sylvia Gommes (todos oriundos do Reciclo Geral) e Pedro Morais. Cada um dos três idealizadores do “A Outra Cidade” – que vai voltar ao mercado em versão remixada – também está trabalhando em seus próprios discos solo. No caso de Makely, são duas as frentes de atuação. “Estou finalizando o disco da Danaide, que é o projeto meu e da Maísa Moura, para lançar no final de agosto ou início de setembro. Ao mesmo tempo, estou fazendo o meu disco com a Contrabanda, para o próximo ano”, diz, explicando que, enquanto a Danaide apresenta uma sonoridade mais melódica e harmônica, com o uso majoritário de cordas, o trabalho com a Contrabanda resulta em algo mais pesado, com guitarras e programações eletrônicas. Para este, ele terá Renato Villaça como produtor principal, mas não exclusivo. “Convidei o pessoal do Digitaria e o Vulgue Tostoi para que cada um produza uma faixa”, diz.

CRIAÇÀO COLETIVA

Kristoff Silva, cujo disco de estréia solo ainda está em fase de pré-produção, projeta o que pode advir da proximidade – no campo profissional e pessoal – com Zé Miguel Wisnik, Ná Ozzetti e Luiz Tatit, entre outros artistas que, de uma forma ou de outra, devem participar de seu trabalho. Ele considera, a propósito, que a possibilidade da criação coletiva é um dos principais legados do Reciclo Geral. “O projeto incitou a aproximação e isso nos fez ver que a arte pode ser feita assim. Isso está muito mais em sintonia com o nosso tempo do que a expectativa de que vá surgir um novo Chico Buarque, um novo Caetano. A troca de informações e experiências tem a ver com essa pluralidade de vertentes que a música mineira já possui”, diz. Concordando com Kristoff, Vítor Santana considera que essa geração de músicos mineiros está despontando com tanta força porque trabalha de forma cooperativa. “O que a gente herdou de mais importante do Reciclo Geral é essa vocação para atuar em grupo, o que não significa um direcionamento estético determinado porque cada um tem o seu trabalho”, observa. Sobre o seu disco com Mariana Nunes, destaca que tem sido muito bem recebido, inclusive em São Paulo, onde a dupla já promoveu o show de lançamento em quatro diferentes oportunidades, no Sesc Pompéia e no Sesc Consolação.

LAÇOS ESTREITOS

Leopoldina destaca que o Reciclo Geral também serviu para que os músicos que participaram pudessem estreitar os laços com artistas de carreira consolidada. “Essa possibilidade de integração foi muito importante para nós. A Titane, por exemplo, ia ao Reciclo todas as quartas-feiras, a Patrícia Ahmaral também ia lá muito e a Alda Rezende apareceu alguma vezes. A partir daí, os compositores da nossa geração passaram a fornecer músicas para o repertório delas”, diz, lembrando que os atores dessa cena permanecem preocupados em desenvolver projetos que estimulem o encontro. Um exemplo é o Cubo de Ensaio, idealizado por Makely Ka e Érika com o propósito de promover, esporadicamente, shows dos artistas da nova geração. Ao contrário de boa parte de seus pares, Érika aposta num álbum de estréia mais personalista, apenas com músicas de sua autoria e sem participações especiais. “Nunca tive banda, nunca toquei com ninguém, então estou acostumada a fazer o esquema sozinha mesmo. Acho que o disco deve ter essa cara, mais focado na coisa da voz e violão, com bases eletrônicas e uns poucos instrumentos”, explica. Mas esse aparente isolamento não quer dizer que ela não mantenha um contato estreito com seus contemporâneos. “Considero o Reciclo Geral um marco inicial na minha carreira”. Em função das demandas como produtor, Renato Villaça só deve lançar seu disco comercialmente no próximo ano. Ele tem um álbum gravado, uma espécie de piloto, batizado “Musicaleidoscópio”, que, contudo, não chegou a prensar, mas que deverá ser a base de seu debute. “Vou investir nisso de maneira mais incisiva no próximo ano, quando espero ter mais tempo livre. Produzi, com o Rafael Martini, o disco do Dudu Nicácio e da Leopoldina, produzi o ‘Vitrola Alquimista’, da Patrícia Ahmaral, e estou trabalhando no do Makely com a Contrabanda e no da Maria Cecília. Para o final do ano ainda tem o da Titane, que também vou produzir”, diz.

MATERIAL DE SOBRA

O álbum de estréia de Mestre Jonas também deve sair apenas em 2006, apesar de ele já ter material de sobra para registrar. “Cheguei a gravar 14 faixas, mas, como componho muito, vão aparecendo outras coisas. Vou registrando aos poucos, experimentando umas coisas com o Makely, com o Pererê, com o Dudu Nicácio, com o Tom Nascimento (vocalista do Berimbrown). Enquanto isso, vou testando o repertório em shows e tentando viabilizar alguma coisa via lei de incentivo”, diz, destacando a temporada de apresentações que fez, ao lado de Sylvia Gommes, no Lapinha, entre maio e junho deste ano.

Para Dudu, o Reciclo Geral foi a representação de uma cena que estava surgindo e que se estendia para além do projeto.

“Foi muito prazeroso e fortificante para nós que estávamos participando, mas quem não fazia parte também já estava se articulando e hoje essa geração toda está cada vez mais conquistando espaços. Estamos todos com muita bala na agulha, muita vontade de fazer acontecer”, garante.

Ele adianta que já está pensando, juntamente com Leopoldina, no DVD que registra o show de lançamento de seu álbum de estréia.

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